Terça-feira, Outubro 20, 2009

Unexplainable

Para muita gente poderia ser só uma foto. Só mais uma foto. Só uma foto especial. Para mim é algo que se verte em lágrimas. A foto que esperei a vida inteira para tirar: finalmente na minha mesinha. Entre o mini cactus e a garrafinha com uma mensagem dentro. Poderia ter um enquadramento melhor, uns sorrisos mais espontâneos. Pouco importa, está ali. E não me canso de olhar. Me sinto novamente com oito anos de idade, voltando do shopping com um par de patins, depois do almoço na churrascaria e do melhor sorvete de morango do mundo.
...
Foi simplesmente perfeito. Eu com medo de entrar no auditório antes da minha mãe chegar, descendo a escada olhando para todos os lados e sem ver ninguém. E no fim do corredor, um som, um gesto que nem entendi direito me fizeram olhar para trás. Era ele! Eu mal podia acreditar. Até coloquei a mão na boca com a surpresa. Depois fiquei olhando lá de cima. E no fim de tudo, naquele mar de gente, um abraço fez seis anos parecerem um feriado...

Domingo, Fevereiro 08, 2009

Divas


Domingo, Janeiro 11, 2009

Prognóstico

A paciente Fernanda Cristo e Santos apresenta sinais de psico independência multi-focal desorientada afetivo retrógrado oscilante. Alterna períodos de timidez, verborragia e humor tal qual cor do cabelo e comprimento da franja. Demonstra episódios criativos intensos, manifestos em apresentações teatrais com traços surreais e abstratos, escrevendo textos hilário-irônico-depressivos ou cantando alguma música trash semi-afinada no volume 10, interpostos por períodos de inércia autista e revolta com a humanidade. Apresenta grande desorientação espacial e pessoal com fortes tendências a andar na contra-mão. Gosta de cachorro e tem alergia. Gosta de dormir e tem insônia. Gosta de companhia, mas cansa. Gosta de música que ninguém mais gosta. Queixa-se de saudades inexplicáveis, medos inconsistentes, timidez incoerente e incompreensão relativa. Relata possessões espirituais maléficas após algumas doses de vodka. Não come feijão e separa todo e qualquer elemento verde da comida. Vira levemente o pescoço para o lado direito enquanto fala, pigarreando, geralmente sem saber o que fazer com as mãos. Tem dias que se acha verde. Noutros, lilás. Por fim se convence que ser simplesmente morena, mulher, brasileira, filha única com oito meio-irmãos e jornalista já pode ser bastante complexo.

por Tatiana Monteiro

Sexta-feira, Janeiro 02, 2009

Deixa pra lá...


Ano novo: a mesma velha história. Velhos pequenos problemas. Cabeça doendo, coração batendo por bater. Cada vez menos vontade – de qualquer coisa – e já até ouviu dizer que isso era bom. Cada pensamento uma dor, cada gesto um excesso, cada palavra desnecessária. A mesma velha ladainha. Pra que repetir?

Desculpa! Eis o que sempre é preciso dizer. Mas não muda nada, não faz esquecer. Promessas (quem quer ouvir?). Nunca são compridas, melhor nem falar. Inveja de um caracol. Desejo de se esconder, se encolher, ser esquecido. Existência supérflua. Foi sempre assim. Pra que repetir?

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

Surreal

Do livro Joan Miró - A cor dos meus sonhos - Entrevistas com Georges Raillard:

Georges Raillard - Você cortou essas lixas, por assim dizer, num gesto raivoso. E a matéria dessas duas manchas castanhas, espessas, que se repetem simetricamente nas duas folhas, lembra excremento.

Joan Miró - Sim, sim, é merda. Eu estava aqui, me deu vontade de cagar, baixei as calças e, pronto, caguei nas lixas amarelas novinhas. E depois, plaft! apertei o outro papelão em
cima. Deixei assim e deu essa bela matéria. Quem sabe, eu não devesse dizer, pois os marchands... Pra mim, isso não é uma provocação, como aquele italiano que fez latas de conservas e colcou uma etiqueta: Merda de Artista. Não. É uma bela matéria, uma bela matéria. E agora trabalho nas três ao mesmo tempo.